“Penso então no que vimos fazendo como sociedade,

produzindo imagens compulsivamente e às vezes não dizendo muita coisa.

E o quanto, por outro lado,

a ressignificação de imagens que foram captadas em momentos diversos

pode nos dizer do hoje, do ontem e do sempre

da humanidade e de sua história.”

 

Marta Chamarelli

 

            Aprecio festivais de cinema não só pela maratona cinéfila que nos proporcionam, mas  especialmente pela oportunidade de assistir a filmes sobre os quais não ouvi nem li comentários a respeito, não tive acesso a nenhuma opinião balizada sobre a obra e, com sorte, desconheço até a sinopse. O filme chega completamente despido e encontra a gente desarmada de pré conceitos, de leituras ou referências. É surpreendente ver o que se descortina na tela quando você não imagina o que o aguarda.

            E foi exatamente o que aconteceu comigo quando assisti a No intenso agora, de João Moreira Salles, no Festival de Cinema de Ouro Preto, em junho, na última noite, quando a curadoria nos brinda com um filme “surpresa”. Devo dizer que a sessão revolveu-me as entranhas, de tal modo que não pude dormir ao voltar para o hotel, precisava falar ou escrever sobre o filme. Tão logo saí do cinema Vila Rica, me perguntei de que se tratava o filme… E eu (confesso!), naquele momento, não saberia dizer! Entretanto, estava de tal maneira mobilizada que passaria a noite num bar falando sobre o mesmo e sobre as emoções que ele me proporcionou. Se alguém me perguntasse, não seria capaz sequer de ensaiar uma sinopse. E, não sei se apesar ou exatamente por isso, estava completamente arrebatada pelo que tinha acabado de assistir.

            Escrevi, escrevi, pensei e pensei e venho pensando até hoje quando, finalmente, me deparei com o trailer do filme em exibição no cinema. Está entrando em cartaz. E eu, naturalmente, vou assistir de novo. Quem sabe não descubro do que se trata?! Quem sabe não descubro porque ele me “enfeitiçou” de tal maneira?

            Brincadeiras à parte, o filme é todo feito com imagens de arquivo. Todo? Todo. Imagens oficiais que vimos na mídia em algum momento da vida, imagens amadoras, captadas por pessoas que não sabemos quem são, imagens do arquivo pessoal da família do diretor e outras tantas. Esse dado me faz pensar no quanto o diretor nos ensina com o seu gesto. Podemos produzir múltiplos sentidos sem produzir uma imagem sequer. Num mundo cheio de imagens e até mesmo saturado delas, ele produz um filme sem sequer apertar a tecla de uma câmera. E o resultado é muito potente.

           Penso então no que vimos fazendo como sociedade, produzindo imagens compulsivamente e às vezes não dizendo muita coisa. E o quanto, por outro lado, a ressignificação de imagens que foram captadas em momentos diversos pode nos dizer do hoje, do ontem e do sempre da humanidade e de sua história.  Talvez possamos abrir nossos HD’s mais antigos, pen drives, fitas de VHS, fitas cassete e quem sabe, possamos encontrar também algum filme super 8 perdido num armário esquecido… Tenho visto algumas produções experimentais, nessa linha, que vem se mostrando muito profícua e interessante. Esse trabalho de garimpo e de montagem do material envolve uma enorme tarefa criativa podendo produzir inúmeros sentidos como o filme mencionado o faz tão bem.

            Não pretendo aqui discorrer sobre o que nos fala o autor, até porque não seria capaz de fazê-lo. Penso, entretanto que esse é um daqueles filmes que diz coisas diferentes a cada pessoa que o assiste. E considero isso um grande mérito. Não há uma chave de interpretação para o que a película nos traz. Cada um, de acordo com suas memórias e sua visão de mundo, viverá uma experiência particular ao assistir No intenso agora. Pelo menos essa é a impressão que eu tenho.

            As imagens trazidas pelo filme mesclam lembranças pessoais e de momentos cruciais na vida de sociedades diversas, imagens de um outro tempo que esbarram em nossas histórias e na nossa construção pessoal da nossa memória do mundo, nos fazendo refletir não somente sobre os acontecimentos mas também sobre o lugar que ocupamos diante dos fatos e dessa nossa história comum.

            No intenso agora, para mim, além de um belo filme, engendra uma pedagogia de ressignificação das imagens. Podemos rever tudo o que já nos aconteceu (pessoal ou universalmente) numa construção de memória bem particular e bem íntima e, sobretudo, muito inesperada e surpreendente. Como ele faz isso, não saberia dizer, ainda me considero sob o impacto da sessão assistida, preciso ver de novo e de novo para conseguir articular algo mais substancial sobre essa produção que me afetou tanto.

            Como não encontrei os escritos feitos por mim após a sessão, tento agora reconstituir a memória daquele momento, mas tenho claro que é impossível e corro o risco de não conseguir passar toda a emoção que vivi naquela noite. Mas arrisco-me, mesmo assim, a construir uma memória em cima do que penso que escrevi naquela noite e em toda a curta viagem de avião de BH até o Rio. A exemplo de João, também eu abro aqui o meu arquivo pessoal interno e ressignifico as minhas memórias e os meus sentimentos acerca daquele momento.

            É claro que nem todo mundo vai gostar do filme. Logo depois de Ouro Preto, tive a oportunidade de ler umas duas ou três críticas a respeito e fiquei com a nítida impressão de que os autores tinham visto algo diferente do que eu vi. Entretanto não me pareceu estranho isso. Frequentemente, algumas obras parecem nos escancarar leituras, proporcionar várias chaves de interpretação diversas, não se restringindo a um único sentido e, por isso mesmo, abrem a possibilidade de atravessar as fronteiras do espaço e do tempo, encontrando eco em civilizações e culturas diferentes. No intenso agora, a meu ver, é uma dessas obras, arrisco-me a apostar.

            Quem tiver oportunidade, não deve perder.

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